Hércules (Hercules – 1997)

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Os que lembram das produções animadas da Disney durante a década de 1990 entendem por que o período ficou conhecido como segunda era de ouro da produtora. Quase por acidente, uma nova fórmula de desenhos animados que resgatavam o estilo musical clássico e, ao mesmo tempo, contavam história com viés mais contemporâneo foi redescoberta. Entre clássicos instantâneos como AladdinO Rei Leão e A Bela e a Fera, surgiram obras que ficaram mais esquecidas, como essa releitura do mito grego, Hércules.

Como se trata de uma versão do estúdio do rato infame, é óbvio que as histórias repletas de tragédias familiares e adultérios foram deixadas de lado. O filme segue o caminho padrão de versões hollywoodianas da mitologia grega. Hades (voz do James Woods) é o vilão que faz com que a trama ande. Quando o deus do submundo descobre que o plano para tomar o Olimpo será arruinado pelo sobrinho quando este ainda é bebê, tenta mata-lo. A tentativa falha e Hércules (vozes de Tate Donovan e Josh Keaton) vira um mortal superforte. Depois de crescido, o semi-deus descobre a origem paterna e resolve ser um herói para ganhar um lugar entre os deuses.

A tarefa não era fácil. Usar o mito para fazer um filme com a estrutura exata de Aladdin. Humor com ação fantástica na fórmula musical. Não à toa, os diretores dos desenhos são os mesmos, Ron Clements e John Musker. Daí é fácil ver as semelhanças. Heróis de mitologia fantásticas; Vilões cômicos com poderes; Animais engraçados que acompanham e ajudam os mocinhos (macaco em Aladdin e pégaso em Hércules); interesses românticos com números musicais (Jasmim e Mégara). Mas existe uma diferença fundamental entre os dois que cria qualidades em Aladdin e defeitos em Hércules: os eventos entre as cenas musicais.

Entre as canções de Hércules, raramente há algo que leve a história adiante. No máximo cenas de ação. Em um trecho enorme, quatro músicas são costuradas por rápidas sequências. Hércules parte para descobrir as origens biológicas e canta sobre como é solitário e triste. No meio da música Zeus se revela para ele e diz que deve ser treinado pelo sátiro Philoctedes (voz do Danny DeVito), um diálogo enxuto com o novo mestre e outra música pula anos da evolução de adolescente para adulto. Mais duas cenas de ação em que ele salva Mégara (voz de Susan Egan) e outra em que se revela como herói contra uma hidra e surge outra canção para mostrar como ele ficou popular.

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Hidra. Mudança para conflito pontual.

Por um lado, há uma qualidade que falta a muitos musicais. As melodias servem à narrativa, além de serem divertidas. Mas em Hércules o recurso é usado à exaustão. De muitas formas, parece que os eventos retratados não têm muito efeito. Seja para criar suspense, emoção ou qualquer coisa. É tudo tão rápido e focado em ritmos musicados que mesmo quando parece que o herói morreu para a hidra, não há tensão ou medo por ele.

Como são poucos os diálogos entre as cenas musicais, tanto as falas quanto as músicas são extremamente expositivas. Não é um problema que um filme tenha exposição, mas ela não deve ser preguiçosa. Como não há espaço para apresentar o passado cruel de Mégara, o roteiro simplesmente deixa por conta de Hades explicar a história em uma conversa com a personagem. Não faz sentido uma pessoa ter que detalhar para outra algo que ela já sabe.

Por outro lado, o filme funciona maravilhosamente bem, assim como Aladdin, na parte cômica. As inúmeras sacadas e trocadilhos relacionados com a mitologia grega geram momentos hilários. Em especial por conta do vilão, Hades. Ele é mal feito o Pica-Pau, mas tem personalidade e, na verdade, parece ser uma pessoa muito simpática e divertida. No diálogo em que relembra Mégara do passado dela, ele o faz entre piadinhas muito engraçadas que podem até passar desapercebidas se o espectador não estiver atento.

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Mégara e Hades. Conversas incoerentes, mas hilárias.

A história, mesmo que não seja muito bem contada, tem valores muito interessantes. Mégara não é uma mulher indefesa e é ela quem acaba por salvar o mocinho em algumas cenas. Os temas estão relacionados a questões de grandiosidade humana, e não de representação masculina. E muito do filme questiona as buscas por popularidade, vida eterna e outros objetivos muito comuns da cultura herdada, por alguma ironia, dos gregos.

A parte técnica, como sempre quando se fala de animações da Disney, é impecável. Clements e Musker escolheram usar uma estética que remete às artes gregas. Os traçados do próprio Hércules são cheios de extremidades com linhas em espiral, como em bases de colunas jônicas. Os cabelos de Hades são de fogo e são de uma primazia em animação que um aficionado na arte poderia apenas observar como ele interage com os elementos durante a produção.

Ao término, Hércules é um divertidíssimo filme sobre valores heroicos. Mas a diversão não ocorre por conta da ação ou das reviravoltas da história. A animação faz rir muito e as músicas são dançantes e grudam na cabeça. A história é boa, mas mal contada. O resultado é um daqueles curiosos. O filme é bom, mas não pelos motivos que se espera.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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2 respostas para Hércules (Hercules – 1997)

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