Sinfonia de Paris (An American in Paris – 1951)

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Existem alguns nomes que vêm facilmente à cabeça quando se fala em filmes de dança. Um dos maiores é Gene Kelly. O ator e dançarino possuía uma elegância hipnotizante, quando jogavas as pernas para todos os lados enquanto sapateava, cantava e dançava balé. Não à toa, a expectativa para descobrir este Sinfonia de Paris era alta.

Aqui, ele interpreta Jerry Mulligan, um pintor pobre que escolheu Paris para ser inspiração artística. Numa das saídas pela cidade, se apaixona por Lise Bouvier (Leslie Caron). Os dois fazem um acordo mútuo de não contarem nada sobre quem são um para o outro durante o romance. Ela está noiva, e ele tem um compromisso com uma patrocinadora das pinturas dele.

A ideia é claramente a de um romance de situação. Casal se ama, mas não pode ficar junto devido a um conflito baseado em falta de comunicação. Com um tempero especial de ser um musical da década de 1950, com um dos maiores dançarinos da história do cinema. Há espaço para números de dança maiores que a vida, com sets gigantescos e figurinos ricos e multicoloridos.

O que já levanta uma das grandes qualidades da Hollywood desse período, conhecido como era dourada. Com uma técnica irretocável, eles faziam os filmes com as escalas mais absurdas dentro de estúdios enormes, com centenas de peças de roupas, personagens de moral grandiosa (para a época, deve-se dizer) e as pessoas mais bonitas do mundo.

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Construção de cena maior que a vida. Filme estonteante.

Envolve uma direção de arte primorosa. Os cenários, construídos do zero dentro de um estúdio em algum canto de Los Angeles não são apenas grandes, mas detalhados e usados com inteligência para que a câmera possa viajar entre os ambientes nos números musicais. Em momentos, Jerry conversa com os amigos Adam Cook (Oscar Levant) e Henri Baurel (Georges Guétary), também músicos. A troca vira uma canção pequena que cresce para danças gigantes com centenas de figurantes. A câmera sai de ambientes fechados e abre para as ruas forjadas de Paris.

Além da grandiosidade, outro objetivo é a beleza. Os atores, por si só pessoas belas, usam roupas que se encaixam em estereótipos franceses com tons de vermelho, branco e azul. As cores estão nas bandeiras dos Estados Unidos e da França, o que representa a união das duas culturas. Mais tarde, Jerry e Lise passam a usar o verde, para representar como estão excluídos do mundo enquanto escondem segredos.

Nada disso tem força, porém, com uma trama tão fraca. Especialmente com estes personagens. Jerry se apaixona e começa a perseguir Lise de forma agressiva. É incômodo e beira o assédio. Até ela sorrir pela primeira vez. Então, o filme sugere que é o suficiente para que os dois se amem. Ela, então, começa a trair o noivo descaradamente. Como não há cenas de interação entre ambos além de danças, não há como acreditar que eles funcionam como casal. Eles não dialogam ou parecem passar tempo juntos.

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Jerry se força sobre Lise. Incômodo.

Piora quando Henri, noivo de Lise, é mostrado como um cara muito legal, simpático e carinhoso. Apenas dá mais raiva dos protagonistas. Outro personagem também rouba o destaque. Adam Cook se apresenta logo no início como um homem irritadiço. Em grande parte porque sente falta de qualidade na música e arte ao redor. Ele gera cenas hilárias, como quando pede dois copos de conhaque ao descobrir que os dois amigos estão apaixonados pela mesma mulher.

Gene Kelly era ótimo em tudo. Faz uma grande performance melodramática, o que não é fácil, com dança e canto impecáveis. Guétary não faz mais do que ser feliz, mas canta ainda melhor que o protagonista. Levant assusta com a capacidade técnica com a qual toca inúmeros instrumentos. Também é genial com as caras e bocas do personagem cômico. O ponto baixo é Caron. Apesar de ser uma dançarina assombrosa, que acompanha Kelly com aparente facilidade, a atuação dela é horrorosa. Não expressa sentimentos, apenas fala nas horas certas.

Sinfonia de Paris é quase uma decepção. A história é fraca, os protagonistas são antipáticos e até causam raiva durante o desenrolar da narrativa. Mas o espetáculo vale a assistida. As cores e as danças, nas mãos de gente tão eficiente e capaz, são impressionantes e enchem a tela com beleza. Infelizmente, não é só de música e dança que se faz um musical.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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