Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them – 2016)

 

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Antes do lançamento deste filme, muita gente não sabia do que se trata Animais Fantásticos e Onde Habitam. Especialmente porque não carrega nada dos nomes e títulos da franquia da qual faz parte, Harry Potter. Ao mesmo tempo em que isso com certeza pesará na bilheteria, também é um dos trunfos da produção. Apesar de ser no mesmo universo, não precisa ser preso ao material original.

Tanto que a história se passa aproximadamente 70 anos antes da franquia principal. Em 1926, o bruxo inglês Newt Scamander (Eddie Redmayne) desembarca em Nova Iorque com uma mala cheia de diferentes espécies de animais mágicos. Depois de alguns encontros acidentais com Porpentina Goldstein (Katherine Waterston) e com Jacob Kowalski (Dan Fogler), alguns dos bichos fogem pela cidade. O trio precisa se unir para recapturá-los, ao mesmo tempo em que um golpe secreto ocorre no governo local.

O objetivo aqui não é apenas retornar ao mundo de Harry Potter, mas fazer uma nova franquia com novos personagens e nova história. Surgem, então, dois problemas sérios: ao mesmo tempo em que é preciso conservar o espírito e o universo, é preciso manter uma distância. Se for apenas mais uma cópia de um ciclo muito bem feito e fechado, não parece original; mas ao conseguir repetir as características certas e criar as novidades certas, o filme funciona.

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Grupo de protagonistas é adorável.

As três características que mais fizeram com que Harry Potter funcionasse são os personagens, o universo e a aventura. Aqui os três elementos são sustentados. Newt, Porpentina, Jacob e Queenie (Alison Sudol) são adoráveis pelos mesmos motivos que Harry, Rony e Herminone eram. Pessoas vulneráveis, tratadas como estranhas por motivos diferentes e que não se sentem como parte do mundo em que vivem. Isso sozinho cria empatia, mas, na forma como encontram familiaridade e consolo na companhia uns dos outros, eles deixam de ser apenas identificáveis. Tornam-se adoráveis e o público torce para que sejam não apenas felizes, mas que sejam unidos.

Newt, por exemplo, se identifica mais com animais que com pessoas. Introvertido, não consegue sustentar o olhar de outros e está sempre preparado para o pior da humanidade, mesmo que não guarde rancor dela. E, para isso, o Eddie Redmayne é perfeito. Sem grandes melodramas e personagens com conflitos limítrofes, ele funciona muito bem. Dá humanidade para Scamander sem que ele seja um estereótipo.

O mérito para isso também é, em grande parte, da roteirista J. K. Rowling, que escreveu os livros da franquia Harry Potter. É possível ver esse mesmo estilo de personagem em toda a obra da autora. A repetição não parece fútil, porque eles têm conflitos semelhantes, mas nunca iguais. Ajuda ter um bom diretor de atores como o David Yates. Ele sabe escolher os atores certos para cada papel e sabe indicar para cada um os momentos adequados de reação e o alcance bem dosado da expressividade.

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Eddie Redmayne. Perfeito para o papel.

O mundo de magia continua a estarrecer. Ele é construído em parte pela criatividade das regras do funcionamento da mágica, usada para todo tipo de coisas. Desde as mais simples, como ajudar a trocar de roupa ou fazer comida, até as mais complexas, como rearranjar prédios, ler mentes e colocar espaço de prédios dentro de uma mala. A concretização é importante para que dê certo. Queenie lê a mente dos outros, o que dá opções de diálogos divertidos e inteligentes. Especialmente com Jacob, com quem ela cria uma relação amorosa.

Ao mesmo tempo, a direção de arte é fundamental para que a mágica não pareça inverossímil. Se um relógio indica um nível de perigo para o uso de magia, ele tem um mecanismo interno que gira com ele. A mala de Newt com espaço para inúmeros animais tem design interno de escadas de madeiras e cômodos separados por panos. Existe algo de arcaico em meio ao mágico, o que o torna mais crível.

Por último, a aventura. O mundo de magia dá oportunidade para que as cenas de ação envolvam animais gigantes com chifres e perseguições que mudam de cenário com o piscar dos olhos. É divertido por si só, mas Yates e Rowling sabem construir em cima das situações, para que pareça que os personagens estão em perigo. Ainda assim, é possível rir quando Newt faz barulhos agudos e dança desengonçado para atrair um dos bichos. O resultado são cenas de ação envolventes e divertidas ao mesmo tempo.

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Colin Farrell protagoniza a trama de conspiração. Sombrio e afastado dos heróis.

Com os três itens básicos acertados, é preciso acertar também na novidade. A trama com os contextos dela. E é aí que Animais Fantásticos derrapa feio. Enquanto a busca dos protagonistas envolve encontros rápidos e divertidos com os bichinhos, a trama de golpe é repleta de características mais adultas. E os heróis não são conectados com ela diretamente, com exceção de Porpentina.

Eles também não passam por transformações devido à aventura. Muito pelo contrário, Newt é a ferramenta de transformação para todo mundo ao redor, mas ele continua a mesma pessoa do começo ao fim. Parece que o encontro com o vilão e o conflito final são um degrau para outra história, que ainda será contada em alguma continuação (que já foi confirmada). É a sensação velha de que se viu um episódio de série de TV, e não um filme.

Outro defeito se encontra na computação gráfica. Os efeitos digitais parecem falsos e se destacam quando em contraste com pessoas. Quando alguém faz carinho em um dos bichos, eles parecem existir em realidades distintas.

James Newton Howard entra na trilha sonora e acrescenta à franquia o estilo clássico e belo dele. Abre o filme com um leve toque do tema de Edwiges, para lembrar que ainda é o universo Harry Potter, e logo em seguida começa a própria composição. A música de Animais Fantásticos e Onde Habitam é individual da produção e não depende da franquia original, mas ainda assim não a nega.

Sem profundidade e sem desenvolvimento de conflito e de personagens, Animais Fantásticos e Onde Habitam parece faltar algo. No entanto, a viagem é divertida, o filme nunca fica chato e é muito fácil se ver com um sorriso graças à boa e velha magia de J. K. Rowling. Que venha mais.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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