1001 Filmes #24 – A Última Gargalhada

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Nada melhor para voltar para esta coluna do que com um dos grandes expoentes do Expressionismo Alemão, neste clássico do diretor F. W. Murnau. No caso de A Última Gargalhada o valor para o site é especial. Foi um dos filmes que o criador assistiu na especialização de cinema e um dos que o mais cativou, ganhando até espaço como um dos filmes que ilustram a aba superior do Aquela Velha Onda.

Como dita a regra do Expressionismo Alemão, o que menos importa em um filme é a história, mas os subtextos. Tanto em Nosferatu, O Gabinete do Doutor Caligari e Doutor Mabuse, a trama não é sobre um vampiro, um psiquiatra maníaco ou um grande criminoso do mal, mas sobre pessoas em situação de desespero e desesperança. Uns o fazem com horror, já aqui é feito com contexto social.

O movimento é reconhecido por ter sido influenciado pela situação da Alemanha no entre guerras mundiais. Devastada pela primeira, a população e o governo passaram por um inferno espiritual, até que um certo nanico austríaco elevou os ânimos e fez com o país o que muita gente tem feito em várias partes do mundo. O que se reflete de forma única neste filme, uma vez que o protagonista, Emil Jannings, se tornou um ator proeminente durante o governo nazista.

Mas isso é na vida real; na ficção ele é o simpático e feliz porteiro de hotel que entra em desespero ao perder o cargo e virar funcionário da limpeza do estabelecimento. Simples demais até, mas é o suficiente para que um diretor como Murnau faça um desbunde cinematográfico.

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De porteiro a limpador. Desesperança com discussão social.

Trata-se (como em todos os filmes até o momento) de uma obra muda, mas o diretor alemão quis quebrar a regra do diálogo expositivo antes deles serem excessivos. A Última Gargalhada não possui uma única fala por parte dos personagens. Tudo é compreensível apenas pelas imagens e por pontuais passagens de texto, como leitura de cartões e bilhetes.

Impressionante apenas por isso, Murnau vai além, ao usar de metáforas visuais para enriquecer a narrativa, como usar a porta giratória do hotel para representar a transição de status social. Também usa a câmera de forma que deixa intrigado ainda hoje. Com frequência, ele transita pelos cenários com uma fluidez que parece impossível para a época. Em um momento específico, o cenário parece se dobrar sobre o porteiro, como se a cidade e a sociedade quisessem matá-lo. Até hoje, não faço ideia de como essa cena foi filmada.

E talvez seja um dos grandes baratos de um filme bem feito. Ele engana e faz acreditar que a mentira é real. O que é ainda mais forte em um filme preto e branco e mudo. Assista abaixo.

O filme tem um pecado imperdoável, porém. O estúdio forçou Murnau a filmar um final feliz. Então, com poucos minutos, milagres acontecem e a situação do porteiro é revertida. O que, obviamente, arruína a mensagem. Mas o que veio antes é tão forte e bem feito que até isso é esquecível.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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