Capitão Fantástico (Captain Fantastic – 2015)

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O plano, longo e sem música, é de uma floresta silenciosa vista de cima. Corta para o meio das árvores e, aos poucos, um veado aparece. No canto de um enquadramento rápido é difícil notar um rosto humano escondido pela lama. Entre imagens rápidas, sangue escorre de um corte e o animal está morto. Vitorioso, o jovem na casa dos vinte anos olha ao redor e o movimento de câmera mostra mais cinco pessoas, ainda mais novas, escondidas com lama nas redondezas. Sem cortar, ela encontra cada um deles até que o último deixe a tela vazia, e se vê um homem mais velho.

Assim, sem diálogos, com montagem precisa e posicionamento inteligente dos atores diante da câmera, Capitão Fantástico faz o que foi raro nos cinemas em 2016: conta uma história com a linguagem cinematográfica. São menos de cinco minutos para se saber que se trata de um filme bem dirigido, fotografado e montado. E, por incrível que pareça, Capitão Fantástico consegue ser ainda mais do que isso.

Sugestão de música para ouvir enquanto lê a crítica.

Ben Cash (Viggo Mortensen) é o pai de seis crianças que criou na floresta, com lições de filosofia e sobrevivência. A esposa, que estava internada em um hospital em outro estado, comete suicídio, e o sogro de Ben pretende enterrá-la com uma cerimônia cristã. Para garantir que ela seja cremada como desejava, de acordo com os ensinamentos budistas, ele e os filhos começam uma viagem até lá. O caminho vai oferecer os primeiros choques da educação dos filhos com a sociedade.

A sinopse deixa clara a proposta de discutir educação em uma sociedade cheia de problemas em relação ao assunto e os custos de fazer algo mais diferente. Vai além das consequências diretamente relacionadas aos jovens, mas também aos pais. A pergunta principal que Capitão Fantástico faz é como a educação influencia as crianças, os adultos e a vida em sociedade como um todo.

O que aqui ocorre em um dos contextos mais dramáticos possível, quando um dos pais sofre de transtorno bipolar. Um distúrbio do tipo cria problemas incomuns dos mais variados em uma família e pode virar uma desculpa para um filme melodramático e exagerado. Em um caminho diferente, o diretor e roteirista Matt Ross não se deixa cair em armadilhas narrativas e faz com que tudo pareça natural.

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Contraste com a sociedade parece natural.

Sem reviravoltas em cenas que virariam cenas de comédia fáceis ou monólogos sobre dor e solidão. Sempre que os conflitos dos filhos com a “normalidade” parecem que vão virar uma briga imensa ou algo do tipo, Ross os usa para criar reflexão. O humor surge do contraste. Numa das melhores cenas do filme, Ben discute a representação da pedofilia em Lolita com uma das filhas adolescentes, quando o irmão mais novo questiona o que é estupro e relação sexual. Há algo de cômico em ver uma criança de 8 anos entender a dinâmica do sexo depois de um diálogo sobre pedofilia e estupro. Essa comicidade escala em diversos níveis por através do filme.

O mais interessante é como o roteiro se desenvolve para que a discussão fique cada vez mais compreensível para Ben. Ele tem tanta certeza de que a forma como educou os filhos é superior às de toda a sociedade, que não compreende quando os problemas começam a ficar visíveis. Começa aos poucos, quando o filho mais velho não consegue dialogar com garotas, passa por pequenas pistas de que a esposa de Ben talvez se arrependesse de como criaram os filhos e chega no clímax, quando questionamentos sobre moral recaem sobre ele.

É onde entra a capacidade de interpretação do ator Viggo Mortensen. Cada olhar perdido dele ao perceber que os filhos – mesmo que saibam sobre os códigos de direitos, a história humana e até física quântica – não estão prontos para lidar com polícia, abandono e separação é doloroso. A viagem inicialmente é para resgatar os princípios da mulher e se torna um resgate das próprias escolhas do personagem como pai.

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Treino pesado na floresta. Família no ápice da forma física.

O que torna a viagem ao mesmo tempo saborosa de assistir, é o que torna o último ato do filme mais lento. Quando chegam ao enterro e precisam lidar com os avós, a jornada de Ben parece dar uma freada. Toda a diversão dos contrastes se perde no drama mais pesado. Em especial com a presença intimidadora de um inspirado Frank Langella, que, apesar de tentar impor algo que faz mal aos valores da família da filha, não tem nenhuma intenção negativa. Muito pelo contrário, ele ama os netos e quer o melhor para eles.

Gera momentos que deveriam ser mais frequentes no cinema, quando personagens estão em conflito, e nenhum está completamente certo ou errado. Também faz com que o filme fique na cabeça muitos dias depois da projeção, o que talvez seja ainda mais raro. Capitão Fantástico merece destaque por ser incômodo de forma gostosa e ser capaz de criar as discussões mais valorosas.

 

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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