Memórias de uma Gueixa (Memoirs of a Gueisha – 2005)

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Segunda incursão no cinema do diretor Rob Marshall, logo depois de ser aclamado pelo ótimo Chicago, Memórias de uma Gueixa chegou aos cinemas repleto de expectativas. Incluía no elenco grandes nomes do cinema asiático, na produção, gente como o Steven Spielberg, e na composição musical, o John Williams.

Tudo isso para contar a história real de Chiyo/Sayuri (Ziyi Zhang), uma gueixa que testemunhou a transformação dos costumes do Japão em meio às guerras mundiais. O foco é uma jornada de altos e baixos dentro da cultura japonesa para tentar ficar com um homem que conheceu apenas como “presidente” (uma das traduções possíveis para chairman, vivido no filme pelo Ken Watanabe).

A roteirista Robin Swicord adapta o livro homônimo de Arthur Golden e acerta ao buscar uma verossimilhança na forma como os personagens são representados. Dentro de uma cultura rígida na qual até os atos sexuais e românticos seguem regras sociais específicas, surgiram as gueixas. Idealizadas por serem as acompanhantes (não prostitutas, preste atenção) mais belas, eram intocáveis e possuíam um lugar alto na hierarquia social japonesa. É quase incompreensível para padrões ocidentais menos severos e mais maniqueístas.

É onde Swicord acerta a mão. Pelas mais de duas horas de duração, cria cenas ricas em detalhes para esclarecer o que era ser uma gueixa naquele contexto. O status social cobrava um preço emocional caro, como a maioria dos status na cultura japonesa. O que gera inúmeros obstáculos para que Sayuri possa ser uma gueixa que poderia acompanhar o “presidente”.

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Ken Watanabe como o “presidente”. Bondade rara.

Pessoas atrapalham Sayuri assim como ela as atrapalha de volta, mas nada de propósito. Como na vida real, todo mundo tem objetivos que não condizem uns com os outros. Em certo ponto, surge quase uma inimizade com uma amiga de infância. Existe até ódio e vingança, mas nenhuma age de forma incompreensível ou por maldade. São apenas pessoas magoadas que foram impedidas de conseguir realizar os sonhos.

Entra também outro trunfo do filme, talvez mais pela ação de Marshall na direção. Na rigidez e severidade das tradições japonesas existe também uma beleza exótica para o mundo ocidental. Se as gueixas eram o ideal feminino do país, para o ocidente, elas são misteriosas, assim como as inúmeras imagens de cerejeiras e da arquitetura do país. O diretor é exímio em fazer belos enquadramentos cinematográficos e usa de uma perfeição técnica para representar o Japão.

Os robes, as construções, as maquiagens, os cabelos e todo o resto são cheios de detalhes, o que reflete também a riqueza da cultura retratada. Assistir Memórias de uma Gueixa é quase como assistir um retrato de uma civilização de hábitos completamente diferentes, mesmo que com os mesmo sentimentos. Há algo de exótico e de enriquecedor no quanto pode-se expressar e sentir as mesmas coisas de outras formas.

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Ziyi Zhang. Traços chineses impossíveis de não perceber.

Deve-se dar destaque para a belíssima composição do John Williams, que não se perde da representação momentânea de sentimentos e emoções de cada cena ao mesmo tempo em que usa instrumentos e timbres típicos do Japão.

Outra razão para assistir à produção é a participação da atriz chinesa Ziyi Zhang. Ela prova que é maior que as interpretações físicas de O Tigre e o Dragão e A Hora do Rush 2 ao fazer uma personagem complexa e vulnerável, cuja força reside no olhar e na resiliência contra o sofrimento constante. Infelizmente, ela e a colega de cena, Michelle Yeoh, por serem da China, não possuem os traços físicos de mulheres japonesas e criam um contraste óbvio para quem consegue distinguir as duas nacionalidades. O que quebra a magia do filme constantemente. Ken Watanabe aparece como um elegante cavalheiro, cuja bondade e doçura, ambos raros no Japão da época, fazem com que a paixão de Sayuri pelo “presidente” seja compreensível. Como sempre, o japonês rouba a cena quando entra em cena.

O único pecado de Memórias de uma Gueixa talvez seja ser longo demais, mas Marshall e Swicord fazem com que os dramas de Sayuri prendam a atenção, o que torna impossível não torcer pelas pequenas vitórias dela e ficar triste pelas derrotas.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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