Lion: Uma Jornada para Casa (Lion – 2016)

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Todas as pessoas possuem algo que as assombra. Muito além de uma presença sobrenatural, um indivíduo pode ser assombrado por erros, por culpa, pelo passado e, eventualmente, por uma missão de vida. Lion é sobre um homem perseguido na consciência pela percepção de que deve algo para pessoas que ama, mas que sequer lembrava que existiam.

É o que aconteceu com Saroo Brierly (Dev Patel/Sunny Pawar), um homem que cresceu na Austrália adotado por uma família rica, mas é nascido na Índia. Com mais de vinte anos, ele começa a lembrar do irmão e da mãe biológicos e percebe que ainda os ama e que provavelmente ainda o procuram em desespero.

Basicamente, Lion é sobre como o senso de preocupação e responsabilidade podem pesar sobre uma pessoa. Em especial no caso de alguém adotado, porque também cria culpa. Querer reencontrar com a mãe biológica pode ser ofensivo para a mãe adotiva? Como todos esses sentimentos podem influenciar alguém?

Uma das belezas do roteiro escrito por Luke Davies, adaptado do livro escrito pelo próprio Saroo, é justamente não querer dar respostas concretas, mas mostrar. Para tornar compreensível como o homem real era incapaz de levar a vida adiante devido a todos os questionamentos que dão base à trama, eles colocam o passado com uma presença constante.

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Saroo criança. Muita culpa carregada pela vida.

É onde entra também a melhor parte da direção de Lion, porque o diretor Garth Davis à princípio, coloca o irmão de Saroo no cenário da Austrália como algo que constantemente o retira dos momentos da rotina. Seja quando está em um encontro com a namorada e não consegue apreciar a vista porque sente o parente nas proximidades, ou quando o vê em uma pessoa pobre na rua.

Isso funciona muito principalmente porque a parte narrativa visual condiz com a narrativa escrita e conta a história. Por outro lado, no texto existem muitos problemas. Primeiro porque Davies, o roteirista, parece interessado em contar todos os pequenos detalhes da história real, e segundo porque ele precisa traduzir o que acontece em falas.

Em vários trechos de Lion, Saroo passa por diversas complexidades na jornada para reencontrar a família que não acrescentam à história. Quando criança, depois de perdido do irmão, Saroo passa uma noite com uma mulher que parece interessada em vendê-lo como escravo sexual. Essa trama não leva a lugar nenhum e só parece atrasar mais o conflito principal de começar. Mais tarde, quando adulto, ele desenvolve um romance com uma mulher chamada Lucy (Rooney Mara). Há muito drama na história dos dois e ela simplesmente não leva a nada. Tanto o é que ela fica esquecida a partir de certa parte da trama.

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Saroo com Lucy. Relação rica, mas que não acrescenta à trama.

Além disso, em certos pontos, Saroo começa a gritar sobre a injustiça de ter uma vida de privilégios enquanto a mãe e o irmão o procuram em meio à pobreza. Depois de ter visto inúmeras imagens que já deixam isso claro, é como se o roteiro esperasse que o espectador seja um idiota que precisa que a titia explique cada detalhe.

A fotografia se foca em planos detalhes, que enriquecem as interpretações, mas que não são focadas na narrativa. É o diretor que quer dar destaque para os ótimos atores. Dev Patel demonstra muitas nuances em Saroo. Vai da tristeza do personagem assombrado para o desespero de alguém que de repente percebe que perde cada vez mais o presente. Rooney Mara, mesmo com uma personagem desnecessária, faz com que Lucy seja muito rica de sentimentos. Quando ela chora, é possível ver o sentimento em pequenos detalhes do rosto da atriz, como na boca que treme. Além deles, a Nicole Kidman chama a atenção como a mãe adotiva. O momento em que conhece Saroo na adoção é poderoso porque é possível ver nos olhos dela o amor materno de quem ama o filho.

Em meio a uma história forte, com grandes interpretações e uma direção inteligente, é fácil ficar emocionado. Impossível dizer que Lion não é bonito, porque ele é. Ele também tem ideias narrativas inteligentes que contam a história de maneira eficiente, mas falha ao se perder em diversos momentos. Com duas horas, ele sente como mais longo do que precisava ser.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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