Jackie (2016)

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Uma das histórias reais mais interessantes e repletas de mistérios do último século é a da passagem da família rica e tradicional Kennedy pelos palácios do poder dos Estados Unidos, na década de 1960. Muito se sabe sobre John Fitzgerald e Robert, os irmãos que foram figuras centrais da crise dos mísseis de Cuba, mas pouco se compreende do que os tornou tão icônicos. Talvez seja essa a razão pela qual Jackie entre na lista de filmes que tratem de pessoas que circulavam ao redor dos dois.

Essa dúvida sobre a natureza dos ícones reverbera na esposa de John, Jacqueline (Natalie Portman), quando ele morre assassinado por um franco-atirador, durante um desfile no Texas em pleno mandato eleitoral. Ela recebe um jornalista (Billy Crudup), que deve escrever uma matéria do ponto de vista dela sobre o atentado. Entre as perguntas e respostas, relembra e reflete sobre o marido e o legado de ambos.

Com exceção da filmagem de um especial para TV, em que Jackie apresentou a Casa Branca, todas as cenas do filme se passam do momento em que ela se preparava para a passeata no Texas até o fim do funeral do presidente. A intenção é explorar as várias e complexas faces do luto. O que já é complicado o suficiente em casos comuns fica ainda mais elaborado quando a pessoa tem o “cargo” de primeira dama do Estados Unidos. Especialmente se ela foi a esposa de JFK.

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Primeira dama observa o marido. Admiração que se refletiu pela história.

Todas as questões típicas – que vão desde o confronto com a noção de finitude, passam por legado e vão até o valor da lembrança em relação ao que foi feito de verdade – são abordadas. Mas como se trata das lembranças dela enquanto dá uma entrevista, o fluxo narrativo não é linear. Em grande parte porque o roteiro faz as mesmas perguntas que a protagonista. O que significou a presidência de John Kennedy e, relacionado a ela, como deve ser o enterro que dele?

É preciso dizer que todo o mérito desses questionamentos se encontra no roteiro, e não na cinematografia. É nas entrelinhas dos diálogos de Jackie com o repórter, com Robert (Peter Sarsgaard) e com o padre que encabeçou a cerimônia (John Hurt) que se escondem as dúvidas. A parte técnica de filmagem, porém, acerta profundamente ao fazer com que tudo na produção siga o fluxo de raciocínio que o texto simula.

A começar pela fotografia, que emula as filmagens de película de 1963, quando não havia tecnologia para corrigir foco na hora da gravação e os grãos do filme não podiam ser apagados em pós-produção. O resultado é que Jackie parece feito no evento real, com as câmeras da época. Os ângulos utilizados ou são de posições que um documentarista usaria, ou fazem questão de se fecharem na personagem. Principalmente quando ela se encontra cercada, como se a própria câmera a privasse de espaço pessoal.

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Na Casa Branca, que organizou enquanto viveu lá.

Ainda assim, ela é o destaque das cenas. Mesmo quando uma multidão cerca a ela e ao marido, e Jackie é apenas uma figurante no evento, a protagonista está no centro da tela com foco profundo, que faz com que todo o resto fique não visível. Porque mesmo nesses momentos, a falta de jeito dela em relação ao papel no poder é reflexo do que o filme quer retratar.

Portman some sob o papel com um sotaque difícil de simular, mas que nunca deixa de soar natural. A interpretação de Jacqueline se esconde nos detalhes das posturas e dos gestos da atriz, que está sempre elegante e com retidão na forma de portar, mas os olhares revelam o desespero latente de alguém que questiona o próprio valor da vida diante do luto.

Jackie, infelizmente, é como muitos filmes sobre pessoas reais misteriosas: levanta propostas interessantes, faz muitas das questões corretas, mas jamais seria capaz de responder todas. Afinal, os irmãos Kennedy eram mais que apenas heróis políticos. Como todos os humanos, existem mais facetas que provavelmente nunca serão conhecidas.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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