Curtindo o Homem-Aranha Adoidado (Homem-Aranha: De Volta ao Lar – 2017)

Homem-Aranha na beira de um prédio.jpg

Em certo ponto de Homem-Aranha: De Volta ao Lar, o herói que dá nome ao filme corre por trás de casas de um subúrbio para “pegar um atalho”. Rapidamente, em um dos lotes, ele passa por uma televisão que passa a cena em que Ferris Bueller faz a mesma coisa no clássico Curtindo a Vida Adoidado. É uma forma de deixar clara a referência e dizer para o espectador que esta nova produção do cabeça de teia é uma comédia.

Não à toa, o Peter Parker (Tom Holland) da vez tem como objetivo se tornar um dos Vingadores e poder abandonar a vida de estudante que sofre bullying e nunca é notado pelas garotas, especialmente por Liz Allan (Laura Harrier). Para impressionar Tony Stark (Robert Downey Jr.) depois do conflito contra o Capitão América (Chris Evans, em uma ponta hilária) dois meses antes, ele passa a escapar da escola para perseguir o Abutre (Michael Keaton), que lidera o tráfico de armas de alta tecnologia em Nova Iorque.

Há complicações de sobra para a segunda reinvenção do Homem-Aranha nos cinemas. É preciso renovar a marca para a Sony depois da tragédia “espetacular” anterior, fazer sentido dentro do tal MCU (Marvel Cinematic Universe) e sofrer as comparações com boas performances anteriores do personagem. A escolha aqui, por parte dos estúdios e do diretor Jon Watts, foi seguir a abordagem que nunca foi muito bem explorada do herói: ser piadista em meio a momentos de ação.

Liz Allan

Liz Allan também foi o primeiro interesse romântico do herói nas HQs.

Estar no universo multicolorido e megalomaníaco dos heróis da Marvel ajuda muito. Entre obras de ciclos trágicos, sempre há espaço para o humor, como na trilogia Homem de Ferro ou nos extraordinários Guardiões da Galáxia. Há espaço para fazer o equilíbrio que o Homem-Aranha requer: o de um jovem que precisa sacrificar os desejos de vida, porque tem que fazer a coisa certa, enquanto faz piadas para lidar com o nervosismo que decorre disso.

É parte do que faz com que o aracnídeo seja tão popular: ser vulnerável e ter problemas são as características principais para identificação. E, infelizmente, é onde De Volta ao Lar derrapa. O filme é tão focado em ser cômico, que não tem conflito. Na verdade, Peter Parker praticamente não aparece no filme como o jovem que tenta chamar a atenção da garota (ele até a observa de longe, mas nunca tenta interagir com Liz, o roteiro faz isso por eles). Ele está mais interessado em ser digno de ser um vingador, o que traz à mente os confrontos de direitos autorais do personagem nos cinemas.

De Volta ao Lar é distribuído pela Sony, que também tira dinheiro da bilheteria, enquanto a produção é da Marvel, que ganha o direito de usar o cabeça de teia junto com os vingadores. Assim como na vida real, o enredo é sobre ele ser independente ou do grupo de heróis. Como se a Sony e a Marvel quisessem dizer algo sobre a disputa judicial, mas esquecessem que o personagem tem personalidade além dessas questões. Na verdade, há pontas soltas para todos os lados para que haja continuações com todos os conflitos que o Homem-Aranha realmente tem, mas eles não são explorados aqui.

Peter confuso no parque.jpg

Confusão do personagem reflete a bagunça judicial em que a franquia se encontra.

Porém, mesmo sem enredo ou desenvolvimento de personagem, essa sexta produção do Homem-Aranha é divertidíssima. A comédia funciona em grande parte pelas piadas bem escritas pela equipe de seis roteiristas. Além da referência a filmes dos anos 1980, o Peter Parker é um nerd desajeitado e, como alguém que não sabe lidar com as situações que encontra, ele é engraçado.

Em um dos melhores momentos, ele tenta intimidar um bandido e é recebido com zombaria por ter a voz de adolescente. A situação é engraçada sozinha, mas a reação sem jeito de Holland faz com que ele seja adorável e faça o público rir ainda mais. Ao contrário dele, Keaton faz com que a seriedade do vilão seja crível. Esse é um homem com uma raiva compreensível e que é capaz de fazer tudo para dar segurança para quem ele ama. É humano, intimidador e dá um confronto à altura do herói.

O que gera boas cenas de ação, nas quais o aranha se encontra constantemente em desvantagem. Isso faz com que exista tensão e que o espectador torça por ele. Watts tenta usar ideias e ângulos engenhosos, como uma perseguição em que se vê o Homem-Aranha em um retrovisor ou uma luta aérea na qual o personagem pendurado em um avião fica com a imagem aumentada ao ser reproduzido na camuflagem do veículo.

Michael Keaton como abutre

Michael Keaton. Vilão humano e intimidador.

Mas Watts não é bom em planejar a montagem. É comum não saber o que aconteceu entre dois cortes. Na mesma perseguição de carros, há uma troca de câmera em que uma parede de tijolos se desfaz, mas não é possível saber o que a acertou. Só quando o Homem-Aranha sai dos destroços é que se tem noção que ele foi arremessado contra a construção.

Os fãs que odiavam todas as versões anteriores do cabeça de teia, porque ele não era engraçado, conseguiram exatamente o que queriam: uma produção engraçadíssima. Mais que isso, este é o Homem-Aranha da Marvel, e como a maioria das outras produções do estúdio, ele não resolve todos os conflitos. Felizmente, compensa por ser muito divertido. Infelizmente, mais uma vez, é muito chato ir ao cinema para assistir um filme e ver apenas um episódio de série. É um bom Homem-Aranha, mas não é o que o personagem merece.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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