Thor: Ragnarok (2017)

Thor conduz raios.jpg

É difícil descrever o caminho que a Marvel Filmes tomou para a franquia que construiu com cuidado. São 17 filmes (se levar em conta o lançamento deste terceiro título do deus nórdico Thor) que variam entre os mais variados gêneros e estilos, mas são todos partes de uma única história. Se a cada experiência, a série se tornava mais eclética, com este Thor: Ragnarok ela finalmente se tornou… Extravagante.

Isso porque o estúdio convidou o diretor Taika Waititi para dar novos ares para as aventuras do deus do trovão, uma vez que as duas produções anteriores são alvos de muitas críticas negativas. O tom de fantasia misturado com elementos feudais e ficção científica é mantido, mas é acrescentada uma dose pesada de psicodelia e comédia.

Para isso, a trinca de roteiristas Eric Pearson, Craig Kyle e Christopher Yost fazem com que Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston) caiam em um planeta preso entre portais cósmicos depois de um confronto com a irmã recém descoberta, Hela (Cate Blanchett). Ela esteve presa por milênios e representa um perigo tanto para Asgard quanto para todos os mundos.

Com a desculpa do afastamento dos protagonistas em um local que quebra as leis da física, Waititi tem a desculpa para trabalhar livremente a estética do filme. Detalhes enriquecem os cenários, figurinos, objetos de cena e até maquiagens com linhas cheias de formas poligonais e cores saturadas e simbólicas.

hela posa

Hela, a deusa da morte de Cate Blanchett. Risco para todos os mundos.

O verde ou é relacionado com o Hulk (apenas porque ele é verde), ou com conceitos relacionados com a morte. Não é a toa que a vilã e o exército de mortos que ela controla possuem muitos detalhes esverdeados. O estilo visual remete a padrões oitentistas, o que também explica a escolha de fazer a trilha musical com sintetizadores eletrônicos. Uma boa razão para chamar o compositor Mark Mothersbaugh, que sempre trabalha com detalhes eletrônicos em músicas.

Além da estética, os anos 1980 são referenciados em inúmeras características de filmes do período. Tanto o é que o comportamento de Thor é baseado na personalidade de Jack Burton, personagem principal do clássico Aventureiros do Bairro Proibido, de John Carpenter.

Waititi aproveita a nostalgia e o contexto alienígena para explorar o nonsense tanto na história quanto na linguagem. Isso é notável especialmente em certa cena na qual recria elementos da viagem de barco de A Fantástica Fábrica de Chocolate. É impossível que a música tocada no momento seja diegética, mas tudo na composição de cena sugere que é realmente. E não é ruim porque nada naquela realidade faz sentido.

Justamente por isso, é nessa ambientação que Thor: Ragnarok funciona melhor. O bom ritmo é ditado por uma comédia divertida, feita em grande parte na interação dos personagens com o Hulk (Mark Ruffalo), que é fonte constante de humor pela inadequação.

Thor e Hulk sentados

Heróis juntos. Humor feito por meio da interação dos dois

E mesmo que as cenas sejam feitas para entreter, elas sempre levam a história adiante, como na esperada luta entre os dois heróis. Além de mostrar um espetáculo de efeitos e de ação, ela serve para o desenvolvimento do protagonista até o clímax, pois é quando ele aprende certas lições que serão úteis.

Por outro lado, o conteúdo principal sempre soa vazio. Como a trama é embasada ainda em Asgard e no universo nórdico, quando a história se desloca para lá, a produção se torna um tédio. Desde a vilã que não passa de mais uma megalomaníaca típica de filmes de histórias em quadrinhos, até o conflito principal de Thor e de Loki, clichês e sem graça.

Não é surpresa que as partes mais chatas do filme estejam no primeiro ato, que além desses problemas ainda é mal escrito e mal montado. Pelos cerca de vinte primeiros minutos, Thor vai para um lugar, a ação acontece quando ele aparece, termina quando ele sai e o espectador é levado junto. Isso sem ambientação. Como se esse trecho tivesse sido feito com pressa para chegar na parte principal.

O único acerto na parte nórdica é, mais uma vez, a estética. A fotografia e a direção de arte aliadas à liberdade que os efeitos especiais proporcionam criam imagens belíssimas de valquírias que cavalgam pégasos em uma batalha. Todos os enquadramentos poderiam ser usados como capas de discos de rock. O que condiz perfeitamente com a música Immigrant Song, do Led Zeppelin, tocada com alguma frequência e que tem uma letra carregada de temas da mitologia como o Valhalla e as valquírias.

Hela encara as valquírias.png

Valquírias cavalgam contra a morte. Parece capa de disco de rock.

Por falar nelas, é preciso dar destaque também para a personagem Valquíria (Tessa Thompson), que além de não ser uma donzela em perigo para algum homem salvar, divide o protagonismo de uma cena de ação com o herói. E o melhor, também serve de âncora para uma piada interessante em que Thor reconhece o valor e o espaço conquistado pelas mulheres de forma encabulada, porque sabe que se falar errado, pode soar o contrário, preconceituoso.

Um desbunde visual divertido, mas há algo em Thor: Ragnarok que o torna ainda mais especial. É possível notar em cada momento do filme que esta produção tem a mão de autor de Waititi. Será possível que os próximos filmes da Marvel sejam ainda mais únicos e com a estética dos diretores contratados, ao invés de serem repetições de fórmulas?

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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3 respostas para Thor: Ragnarok (2017)

  1. Concordo muito coma crítica, e acho que o primeiro ato nos deixou aflitos com relação ao desenvolvimento do filme, mas parece que a cosa meio que pega no tranco, e daí vai.
    Nem uma menção ao mestre Hopkins que rouba a tela toda vez que aparece? Despediu-se de Odin, imagino.
    A dinâmica entre Loki e Thor tem se tornado cansativa, concordo. Mas será que a Marvel planeja uma futura redenção do Deus da Travessura?
    Ps; Fui enganada! Aquela cena das maravilhosas Valquirias foi mínima! Queria uma sequência longa e completa com elas!
    No final das contas, filme divertido e refreshing. #ReinventaMarvel.

    • Vina disse:

      Eu achei o Anthony Hopkins um pouco apagado. Ele aparece tão pouco e em cenas tão bruscas. O Loki é o Deus da Travessura que cai em todas as armadilhas e não consegue montar nenhuma. Neste terceiro filme, então…
      A Valquíria e o Hulk são os destaques, na minha opinião. Tomara que a Marvel consiga se reinventar ainda mais.

  2. Pingback: Grande Hotel Podcast 25 – Singelo e Escroto | Aquela velha onda.

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