Em Busca de Fellini (In Search of Fellini – 2017)

Lucy em Verona

“Realismo é uma palavra ruim. De certa forma, tudo é realista. Não vejo uma linha entre o imaginário e o real”, dizem os créditos iniciais deste misto de aventura de mulher jovem que se descobre com homenagem ao diretor Federico Fellini. A citação do homenageado parece abraçar a ideia de que um filme não precisa ser verossímil para construir algo real.

Ainda mais quando os segundos títulos anunciam que a jornada pessoal de Lucy (Ksenia Solo) é inspirada em fatos quase reais. Criada até os 20 anos por Claire (Maria Bello), uma mãe superprotetora, a garota não sabe conviver socialmente e não entende completamente como a parte cruel do mundo funciona. O que se torna um obstáculo complicado quando ela decide partir para a Itália atrás de Federico Fellini depois de se apaixonar pelos filmes dele.

Como a história se passa em 1993, ano em que o diretor morreu, e está cheia de referências à obra dele como personagens chamados Guido, falas de filmes repetidas à exaustão e muitas camadas de filosofia escondidas em diálogos, é fácil ver que se trata mesmo de uma homenagem. Mas uma que segue uma linguagem e uma estética completamente diferente do que seria adequado a Fellini.

De fato, toda a estrutura técnica da produção reflete a ideia de que se trata de uma realidade fantástica. Principalmente a fotografia, que estoura a entrada de luz, o que faz com que o filme tenha uma aparência de uma camada de véu. Como se a história fosse contada em um universo mágico. Ainda mais quando a iluminação várias vezes está presente nas cenas internas, como nas janelas da casa de Claire. Assim, o mundo exterior parece uma grande verdade a ser descoberta.

casal em Verona

Tons dourados aparecem quando a situação é aconchegante.

O diretor de fotografia Kevin Garrison, em seu debute em longa metragens, também usa cores para indicar os caminhos de Lucy. Quando as coisas estão bem em casa e ela sai com a mãe, a iluminação é dourada e contra luzes criam uma áurea divina nas personagens. Mas quando a protagonista parte na jornada e a mãe, doente, tenta entender os objetivos ao assistir filmes de Fellini, os tons mudam para azul. A casa é terna e convidativa para ela se tudo estiver bem, mas passa a ser fria por faltar algo mais tarde.

Além disso, Garrison e o diretor (também estreante em longas) Taron Lexton escolhem criar focos com muita profundidade. Assim, o olhar do espectador fica preso ao que Lucy presta atenção. A visão inocente dela é o que se destaca sempre. Ainda realça a sensação de um véu na imagem e cria cenas lindíssimas.

Esse tom de fantasia representa uma realidade, por mais que não seja verossímil. Essa dicotomia é parte da graça do filme. Porém, é quase uma leitura errada da obra de Fellini. Como o roteiro de Nancy Cartwright e Peter Kjenaas toma base também em Alice no País das Maravilhas para construir a estrutura da jornada de Lucy, ele cria uma sensação de que se vê algo como uma queda de uma garota através do buraco de coelho de Fellini.

irmãs assistem filmes

A mãe e a tia assistem Fellini juntas. Homenagem equivocada.

Apesar de ter um resultado belo, as andanças da personagem por Verona, Veneza e Roma rapidamente geram uma fadiga. Em grande parte porque ela parece sem rumo e sem objetivo. Numa hora se apaixona, na outra é perseguida depois de fugir de uma orgia. Tudo repleto de referências a Fellini, mas sem seguir o estilo dele. E sem as grandes qualidades que fizeram a obra tão memorável e reverenciada.

O resultado é um gosto amargo na boca. Para o filme que se propõe a ser, Em Busca de Fellini tem muitos problemas de roteiro, mas tem uma ótima ambientação de aventura. Quando se trata de uma homenagem a Fellini, porém, é apenas um erro. Piora ainda mais ao levantar a visão de estadunidenses sobre o cinema europeu.

Existem várias cenas da mãe e da tia de Lucy (Mary Lynn Rajskub, sempre ótima) com leituras simplistas e equivocadas dos filmes de Fellini. É uma simplificação de uma obra muito mais complexa do que a homenagem apresenta. A ironia é que as análises reducionistas das duas valeriam para a produção de que fazem parte.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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