Extraordinário (Wonder – 2017)

família vai junto para a escola

Histórias de crianças com doenças ou condições complicadas são um prato cheio para quem busca um forte melodrama para que toda a família chore. Entre pequenas tragédias da vida comum que são extrapoladas com um problema incomum, as lágrimas devem correr fácil em sessões deste Extraordinário.

Especialmente porque o protagonista Auggie (Jacob Tremblay) não tem algo terminal como um cancêr, mas um problema de formação quando ainda era um feto que o fez passar por inúmeras cirurgias para conseguir enxergar e respirar, além de ter um enorme pedaço de enxerto de pele que faz com que o rosto do garoto tenha deformidades. Depois de anos de estudo em casa, ele precisa ir para uma escola normal pela primeira vez.

À princípio, os roteiristas Jack Thorne, Steve Conrad e Stephen Chbosky (este último também é o diretor) acertam ao fazer um filme sobre a rotina da vida escolar estadunidense, com direito aos clichês comuns. Há Julian (Bryce Gheishar), o garoto rico metido; Jack Will (Noah Jupe), o melhor amigo; senhor Browne (Daveed Diggs), o professor carismático que ajuda a criar um ambiente escolar divertido.

Funciona especialmente porque o diferencial é justamente a condição de Auggie, o que faz com que o filme se assemelhe muito a Jack, filme de Francis Ford Coppola, sobre uma criança com uma doença que a faz desenvolver o corpo de forma acelerada. Isso faz com que todos os clichês funcionem sob uma nova perspectiva.

Augui no parquinho

Auggie tem uma existência solitária nas novas aventuras escolares.

Então o roteiro muda o foco e cria montagens em que cada personagem coadjuvante pode mostrar seus dramas individuais. Apesar de bem montados e de revelar um drama maior que apenas o do garoto, todos ganham voice over. Porque Chbosky parece estar com preguiça de mostrar a história e precisa que alguém detalhe cada momento.

É uma decepção depois que ele faz, na primeira meia hora de filme, exatamente o contrário. Há o momento em que a irmã de Auggie, Via (Izabela Vidovic), não precisa dizer que está decepcionada com uma amiga, basta colocar o almoço de lado e se afastar. Parece que são situações escritas por pessoas diferentes.

Ainda mais quando o filme passa pela primeira metade e várias tramas paralelas se mostram desnecessárias tanto para a história de Auggie, quanto para as relações ao redor dele. O destaque vai para o drama do cachorro da família, que só alonga a produção e tem uma cena gratuita com o Owen Wilson que mais lembra Marley & Eu do que acrescenta à história.

irmã com namorado

A irmã Via, com o possível namorado. Uma das melhores partes do filme.

Servem apenas para forçar ainda mais o melodrama, que não precisa de reforço. A vida de Auggie já é emocionante e sofrida o suficiente. Fazer mais tramas tristes só deixa o filme cansativo e diminui o impacto.

Em termos técnicos é preciso dar destaque para as cenas em que Chbosky mostra a imaginação de Auggie, como participações do Chewbacca na escola. Além disso, a edição de som reforça esses momentos, como a primeira ida do garoto para a aula, em que uma contagem regressiva pode ser ouvida no fundo para indicar o sentimento de aventura naquele novo mundo para ele.

Apesar de ter a cena gratuita, Owen Wilson é um grande ator de melodrama. Ele sabe chorar sem exagerar e o humor dele faz com que os personagens pareçam mais verossímeis. E ele tem uma excelente química com a Julia Roberts, que interpreta a mãe de Auggie. É possível sentir um carinho entre a dupla. Mas o verdadeiro destaque é Vidovic, que tem um estilo muito parecido com o da Carey Mulligan, com um olhar triste que expressa muitas emoções e complexidades. Enquanto o prodígio da vez, Tremblay, carrega bem a produção nas costas, mas fica apagado perto do resto do elenco.

Extraordinário vai funcionar muitíssimo bem para o público alvo. Pais, mães e crianças que têm muito a aprender sobre aceitação e gostam de chorar e se emocionar no cinema. Porém, é um filme muito problemático a partir do segundo ato, e poderia ser muito melhor se fosse mais enxuto. Com tantas tramas paralelas, perde parte do efeito do que pretende fazer.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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