Super Blaxploitation (Pantera Negra – 2018)

Tchala encara o uniforme.jpg

Foi difícil admitir o erro do pré julgamento deste Pantera Negra, com uma estética única que combina o colorido de culturas africanas com as tecnologias de ficção científica do universo da Marvel. Porém, foi preciso lembrar que a estranheza veio de um fator essencial. As raízes das culturas africanas são fortemente encobertas na história da cultura ocidental.

Não à toa, o filme ganha tanta força com um super-herói que não é apenas negro, mas africano também. Não é apenas uma fantasia de empoderamento de uma parte da população mundial, mas das origens deles. Ao mesmo tempo, o diretor Ryan Coogler, que escreveu o filme junto com Joe Robert Cole, aproveita do fato de que o personagem é um rei para elevar os questionamentos em diversos níveis.

T’Challa (Chadwick Boseman) não tem apenas que ser um herói que derrota bandidos e super vilões. Ele enfrenta problemas diplomáticos e políticos. Com a premissa de que Wakanda, a nação fictícia governada pelo super, avançou mais tecnologicamente que qualquer país do mundo, vem uma pergunta fundamental. O que é a responsabilidade da nação mais poderosa em relação ao resto do planeta?

Tchala contra killmonger

T’Challa contra o inimigo Killmonger. Rei guerreiro.

Parece familiar? É porque as dúvidas de T’Challa são feitas para alfinetar a cultura bélica de diversos países do chamado “primeiro mundo”. Mas sem perder a relevância de apontar a culpa herdada pelos brancos colonizadores e como os negros empoderados devem agir depois de séculos de abusos.

As perguntas não são simples, e é justamente por isso que um roteiro bem construído que trabalhe com diversas camadas é importante. É preciso que T’Challa tenha conflitos pessoais, que eles reflitam esses questionamentos, assim como o confronto com o vilão. Sem perder, é claro, o foco na trama política internacional e no tom de filme de espionagem a la James Bond.

Para isso, Coogler assume características populares atuais como o supracitado espião inglês para empoderar pessoas negras. Muito semelhante ao movimento blaxploitation, mas com dinheiro de grandes produções hollywoodianas. Outra referência visual importantíssima é o movimento afrofuturista. Assim, Pantera Negra se mantém como entretenimento, e faz referências a todas as reflexões propostas tanto no texto, como na direção de arte.

Lupita observa preocupada

Personagens femininas fortes. Com figurinos que reforçam o visual africano.

Além do visual arrojado e do roteiro bem estruturado que faz todas as perguntas certas, Coogler, soube escalar um grande elenco de artistas negros que imprimem à produção a seriedade de quem dá valor às tradições de uma cultura. Boseman sustenta bem a parte dramática, mas sempre parece fora de ritmo na parte cômica. Já Michael B. Jordan, como o vilão Erik Killmonger, engole o protagonista sempre que os dois dividem a cena. Uma vez que o antagonista também tem uma jornada pessoa complexa e rica, que exige todo o talento e simpatia do ator.

Também é preciso dar destaque para as fortíssimas personagens mulheres Nakia (Lupita Nyong’o) e Okoye (Danai Gurira), que não precisam de aprovação masculina para se impor e serem respeitadas. Diga-se de passagem, uma certa cena destinada a se tornar icônica mostra um grupo de homens subjugados por mulheres.

Por outro lado, falta a Coogler a habilidade para dirigir cenas de ação com efeitos digitais. Não é incomum ao espectador perder movimentos e golpes nas lutas e perseguições recheados por computação. Ainda pior são os modelos tridimensionais. Tudo parece plástico e falso, desde o próprio Pantera Negra até carros, prédios e animações. Em alguns enquadramentos, é possível ver o recorte de personagens em chroma keys. Para o que a Marvel já fez nos cinemas, é quase um passo para trás.

pantera em cima de carro.jpg

Computação gráfica parece borracha. Efeitos especiais ruins.

Isso sem falar em pequenos momentos feitos para criar algum suspense acerca dos personagens que são tão clichês que o espectador sabe o que ocorrerá minutos antes. Uma luta aqui com certeza será perdida para que a história tenha um conflito mínimo e possa ter continuidade. Tudo isso compromete seriamente a tensão que deveria fortalecer a ação e o suspense.

Ainda se trata de um dos filmes de super-heróis mais relevantes da atualidade. E cientes disso, os realizadores se dão ao trabalho de fazer as perguntas certas e dar as alfinetadas necessárias. A realização técnica tem sérios problemas ao ponto de comprometer o entretenimento, mas não arruína o que é um filme de excelente ritmo cuja mensagem relevante já era importante anos atrás e continuará sendo por muito tempo.

Essa e outras críticas também podem ser lidas no site Sete Cultura, nova parceria do Aquela Velha Onda.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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