Fora do Cinema – O Mecanismo

O-Mecanismo

Existiam vários desafios para O Mecanismo na concepção. Se trataria de um acontecimento real, que até hoje possui detalhes nebulosos e explorados superficialmente pela grande mídia. Um fato histórico pautado, em muitos momentos, por indícios – e apenas isso. Um acontecimento que, em meio a uma população engatinhando no aprendizado do “o que é um ser político”, consegue tocar e abrir feridas no coração de cada brasileiro.

Como qualquer outro estúdio que tem como uma das suas principais finalidades receber o maior número de receitas com produção, a Netflix buscou, a todo momento, caminhos que não abrissem muitas margens para os riscos. Começando por basear a obra no livro Lava Jato – O Juiz Sérgio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, de Vladimir Netto.

A série, dirigida por José Padilha (Tropa de Elite, Narcos), começa em 2003 e tem como personagens principais o agentes Marco Ruffo (Selton Mello) e Verena Cardoni (Caroline Abras), que estão em uma missão de enquadrar em um esquema de corrupção o doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Díaz). Vestígios de uma trama maior acabaram sendo encontrados pelo primeiro, que, sem apoio do departamento de polícia e do Estado, acaba afastado do cargo e recebe uma aposentadoria obrigatória (uma forma encontrada pelos mafiosos para calar a boca do protagonista). Após 10 anos, Verena assume uma nova investigação no departamento de crimes financeiros da Polícia Federal e descobre que já conhecia o principal inimigo, mais uma vez Roberto Ibrahim.

O'Mecanismo

É nítido que a trama contada acima parece superficial e nos lembra de outros tantos trabalhos de filmes estadunidenses envolvendo máfia ou vingança familiar. Entretanto, o foco da série é expor os acontecimentos do maior escândalo de corrupção da história do Brasil, a operação Lava Jato. Antes de começar qualquer episódio, a Netflix já indica que a produção se inspira nos relatos da investigação, mas que algumas coisas podem ter sido acrescentadas para efeito dramático.

Muito provavelmente, toda história contada no terceiro parágrafo foi uma visão particular do roteirista, afinal de contas, não dá para se afirmar que 100% da origem da Lava Jato tenha sido restrita apenas àquilo. Dito isso, a impressão de superficialidade presente no gancho da trama é salva e não atrapalha a produção justamente por, mesmo que conhecidas, as ocorrências iniciais acontecerem de maneira verossímil e com boas motivações do lado dos “mocinhos” e dos bandidos.

Infelizmente, há um problema que ocorre com frequência no decorrer, principalmente, dos três primeiros episódios: as péssimas linhas de falas do off. Sim, estamos falando de José Padilha e, mais uma vez, o diretor mostra uma extrema dependência desse artifício para desenvolver as tramas. Não dá para julgar se ele é um cineasta ainda versátil, afinal de contas, em termos de estrutura, segue exatamente igual às outras produções. O recurso é facilitador demais para a continuidade da história, e o que ele faz neste trabalho é utilizá-lo para expor o passado e a personalidade dos personagens, enquanto mostra de forma visual os atuais acontecimentos. Pobre, mas funcional.

O maior problema é que, por muitas vezes no decorrer de toda a série, o off replica exatamente o que já está sendo mostrado, ou, então, remove, propositalmente, o poder de dedução do telespectador. Podemos exemplificar em uma cena em que Ruffo diz em off que comprou um sítio para a esposa. Ao mesmo tempo, em tela, temos a própria esposa andando no local e, na cena seguinte, repetindo que ganhou a terra. Até a explicação aqui na crítica ficou repetitiva demais, compreende? Muitos episódios conseguiriam se desenrolar facilmente sem o recurso; já outros necessitariam serem reescritos. A impressão é de que nem o diretor sabe ao certo o que quer fazer com, mas prefere usá-lo pelo costume, ao invés de arriscar algo novo.

Temos infinitos personagens que são inspirados em pessoas reais, sendo muito divertida a identificação deles na série. Alguns, propositalmente, se mantém caricaturados, mas isso não atrapalha nem soa forçado ou pedante – é divertido. As ações, um tanto cartunescas, servem até para expor a forma como a política brasileira é compreendida pela população: uma verdadeira chacota. Gostei de tal estética, que se mantém galhofa do início ao fim, é algo assumido.

Um ponto muito positivo que vale ser ressaltado é a atmosfera de suspense criada por Padilha. Como a série não poderia ter muita ação, ver como a trama é desenrolada e as consequências dos atos dos protagonistas se torna algo precioso para a boa produção. E, provavelmente, é interessante ver tudo isso por conta da excelente escolha de elenco. Muitos rostos já são conhecidos pelo espectador brasileiro.

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O vilão desta temporada, Ibrahim, possui uma personalidade debochada e consegue trazer muito carisma ao personagem. Em alguns momentos específicos, quando deve lidar com uma situação de outra maneira, a mudança de humor e planejamento é feita no tempo certo. Ele não toma a decisão de forma abrupta, mas também não fica horas pensando naquilo, o que demonstra o egoísmo, mesmo com outros personagens que podem trazê-lo perigo. Ou seja, é um vilão forte.

Os protagonistas Ruffo e Verona têm uma química de mentor e aluno. O maior problema é acreditar que 10 anos se passaram para esses dois em determinado trecho da série. A atriz Caroline Abras se mantém praticamente igual à três anos antes, enquanto o trabalho com Selton Mello é mais crível. Mesmo assim, eles são personagens de peso. Ele pode ser comparado com o clássico herói noir que tem seus defeitos pessoais, mas que no futuro consegue deixá-los para trás, embora a paranoia inicial e clara do personagem nunca se vá.

Já Verona é aquela heroína que, mesmo julgando o passado do mentor e tendo algumas discordâncias, cresce e se torna ele. Apesar disso, é interessante ver a forma como ambos abordam as auto sabotagens de si mesmos. Ela não consegue seguir em frente em questões amorosas, mas também não é uma personagem dependente disso. E Ruffo tem dificuldades de provar que a família significa algo para ele, causando uma contradição positiva com algo que ocorre nos primeiros minutos da série.

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A direção das cenas e a fotografia são pontos altos também, embora apresentem problemas em determinados momentos. Ao comparar com as últimas grandes produções brasileiras do mesmo gênero – A Teia, Felizes para Sempre? e 3%) – as cenas de O Mecanismo chamam a atenção aos olhos, e as cores vibrantes da paleta contribuem para tal. Encontramos planos mais fechados, com personagens mais isolados; câmeras ao compasso da respiração e móveis acompanhando, por exemplo, os carros em uma cena de perseguição. Alguns enquadramentos escolhidos lembram um pouco os utilizados em Batman: O Cavaleiro das Trevas e, possivelmente, não é por acaso. O tom e ambientação que o diretor tenta implementar na obra não se diferencia muito da trilogia de Christopher Nolan, justamente pela semelhança entre as duas obras em abordar governo, corrupção e a figura de um herói.

Um cuidado que a equipe de produção pecou foi em relação às localizações geográficas existentes nas cidades. Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro são onde transcorrem a maioria dos eventos na série, e as tomadas aéreas e abertas são lindíssimas, porém há uma falsa noção do real. Por exemplo, foi comum na capital federal os personagens partirem de um ponto inicial e alcançarem um ponto final que é impossível chegar pela trajetória desenhada, ou então colocarem uma banca de jornal no meio da Esplanada dos Ministérios. Pode ser bobagem reclamar disso, mas a equipe não se deu o mínimo trabalho de procurar outros locais da cidade que também são bonitos e que possam ser explorados. É um trabalho preguiçoso.

Por fim, O Mecanismo é uma série promissora, com uma primeira temporada que consegue envolver bastante o espectador e instiga a querer saber o desenrolar de uma trama que, na realidade, está longe de nos mostrar todos os desdobramentos. Em meio a uma população calorosa e apaixonada, mas que possui uma extrema dificuldade em manter a mente aberta, apenas, de ler e replicar o que reafirma a própria ideologia, uma série de TV é um excelente caminho para expor diversidade. Dizer que a série teve apenas discursos que batem na esquerda é uma falácia. Ela segue uma linha narrativa contada do ponto de vista de um personagem com bagagem, personalidade e opinião, mas, mesmo assim, não haverá dúvida para quem for até o final de que a obra se mantém em cima do muro em relação a briga direita x esquerda.

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