Bohemian Rhapsody (2018)

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Adaptações para o cinema são das coisas mais difíceis tanto de realizar, quanto de analisar. O original sempre tem peso em todas as escolhas. Desde quanto deve ser romantizado ou alterado. Em caso de adaptação da vida de uma pessoa real, pode ser ainda mais complicado. Ainda mais como no caso deste Bohemian Rhapsody, que narra a jornada de Freddie Mercury (Rami Malek) desde que entrou na banda Queen até a apresentação no show Live Aid.

Ainda hoje, Mercury é um marco para a população LGBTQI, também como um músico e compositor de talento acima da média. Então, abordar o homem é abordar um objeto que toca milhões de pessoas ao redor do mundo. Além de tratar de um tema caro para cinebiografias de artistas “brilhantes”, o equilíbrio entre o gênio e o difícil.

Isso sem falar que vidas não têm início, meio e fim, o que faz dos roteiros uma confusão narrativa. Nesta versão escrita pela dupla Anthony McCarten e Peter Morgan, é criado um começo com um tal de Farrokh Bulsara. Imigrante paquistanês para a Inglaterra, ele recusa as origens para se tornar Freddie Mercury, sem nenhuma tradição do país em que nasceu e louco por rebeldia e por se expressar.

No meio do caminho, ele descobre os prazeres da fama. Com destaque para o momento em que compreende que é gay, mesmo que ainda ame a esposa, Mary (Lucy Boynton). Ainda sem saber quem realmente é, ele precisa se entender com a banda para garantir que vai manter a qualidade da produção musical e as pessoas queridas por perto.

queen no live aid

Apresentação no Live Aid recriada inteiramente na tela. Foco da narrativa.

O acerto aqui é que McCarten e Morgan não se prendem à armadilha da dualidade de que Mercury só é um gênio por ser um arrogante com dificuldades sociais. Muito pelo contrário, o desafio dele é aprender a ser um artista melhor por ser uma pessoa melhor. Por outro lado, erram ao idolatrar a pessoa em toda cena. O que é acompanhado pela direção de Bryan Singer.

Em toda cena, Mercury é a personalidade mais forte de cada ambiente, e Singer o retrata de forma grandiosa e icônica. As falas dele são sempre com frases de efeito, para responder a algo. Seja quando zomba de um produtor musical que acha a música que dá nome ao filme longa demais. “Você deve ser uma decepção para as mulheres se acha seis minutos tempo demais.” Entoa o protagonista, filmado de baixo para cima.

Ele ainda está de pé no cenário, mais alto que o antagonista da cena. Essa idolatria esquece algo fundamental que a mensagem do roteiro quer passar. Mercury era humano. Um humano com dores, com sentimentos, com tristezas e com dificuldades. É um defeito típico de biografias. Os autores não conseguem fugir do lado de fã do personagem.

A fotografia estonteante de Newton Thomas Sigel acrescenta a essa admiração ao enquadrar Mercury por meio de ícones dele, como os óculos escuros espelhados ou o piano em que ele tocava nos shows. Mesmo que Malek não esteja completamente caracterizado, o visual dele é completado pela imagem.

queen ensaia

Atores mimetizam detalhadamente o visual e as performances do Queen em cena.

O ator, diga-se de passagem, é extremamente parecido com o verdadeiro Mercury e simula os movimentos dele com verossimilhança. Mas o que faz com que ele chame a atenção não é a semelhança física ou de trejeitos, mas os momentos em que Malek engasga antes de pedir a namorada em casamento. Ou o olhar perdido no infinito quando descobre que chamou a atenção de um grande produtor musical.

No entanto, quando ele está focado demais na emulação, como na reconstituição do show inteiro do Live Aid, é possível ver que os movimentos são quase mecânicos. Como se Malek tivesse estudado tanto a apresentação que, por mais que mimetize cada passo de Mercury, nenhum deles transmitam a honestidade do sentimento daquele momento.

Bohemian Rhapsody está acima da média do subgênero em que se encontra por ter uma história fechada para contar e por escapar de várias armadilhas. No entanto, não consegue encontrar identidade própria além do ícone que representa. Mesmo morto desde 1991, Freddie Mercury é mais dono do filme que os roteiristas e o diretor.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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