Infiltrado na Klan (BlackkKlansman – 2018)

Ron encara alvo racista.png

Hoje em dia, quando se fala do estilo blaxploitation, o que vem à mente são as referências do Quentin Tarantino, os filmes do Shaft, ou a atriz Pam Grier. Restrita a uma época específica, a estética existe acima do visual e das músicas, mas também na valorização da população negra. E, felizmente, este Infiltrado na Klan se encaixa bem na descrição.

Ele acompanha o policial novato Ron Stallworth (John David Washington, um achado) após ele ligar para um anúncio da Ku Klux Klan no jornal local e marcar um encontro com os representantes do grupo. Como Stallworth é negro, o colega judeu Flip Zimmerman (Adam Driver, que empresta a estoicidade comum dele para um homem dividido entre o profissionalismo e a revolta) precisa se passar por ele.

A proposta, por mais absurda que pareça, é adaptada de livro escrito pelo Stallworth real. Um dos representantes da KKK no filme, inclusive, apareceu em noticiários brasileiros recentes após elogiar as ideologias de um candidato eleito das últimas eleições. E o diretor, Spike Lee, transita entre a dualidade do material original. O horror do racismo, e a comicidade da estupidez por trás do preconceito.

Flip e Ron com a carteirinha do clube da kkk

Zimmerman e Stallworth riem da carteirinha de membro da Ku Klux Klan.

É por isso que Lee mostra os personagens racionais em ambientes descontraídos. Zimmerman e Stallworth brincam com a ideia de que o homem que encontra os preconceituosos é fisicamente judeu e negro na identidade, mas não conseguem evitar o sentimento de revolta ao confrontarem de frente pessoas que os odeiam sem motivo. Mais ainda quando descobrem o nível de periculosidade desses indivíduos.

Para isso, os roteiristas Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott, e o próprio Lee, dividem as cenas em extremos opostos. Em momentos, zombam abertamente dos racistas ao expor racionalizações estúpidas, como a propriedade do presidente da KKK, David Duke (Topher Grace, que serve mais uma vez ao papel do homem ignorante à própria pequenez), ao dizer que é capaz de reconhecer pessoas negras pelo jeito de falar.

Em outros momentos, o humor some para dar espaço para a tensão dos personagens que sofrem abusos diversos. Numa das cenas mais tensas, Patrice Dumas (Laura Harrier, surpreendentemente poderosa e raivosa após a patricinha adorável do último Homem-Aranha), possível interesse amoroso de Stallworth, é assediada por policiais brancos durante uma batida. É um reflexo do mundo real, em que as pessoas vivem calmas e sorriem durante a rotina, mas são forçadas a bater de frente com pequenos horrores diários.

casal principal fazem sinal dos Panteras Negras

Stallworth e Patrice. “Todo o poder para todas as pessoas.”

Assim, Lee, usa e abusa do blaxploitation para criar as situações descontraídas, e desmonta tudo com um estilo cru e verossímil para os horrores. Não é difícil chutar que uns 90% dos personagens negros usam o famoso black power nos cortes de cabelo, com roupas que remetem fortemente à década de 1970, com muitas cores e colarinhos altos.

O diretor, inclusive, faz com que a montagem siga o ritmo de batidas de discotecas enquanto coloca sintetizadores na música incidental. Parece quase um videoclipe que engrandece a cultura afro dos Estados Unidos. Até que o preconceito do país bate neles de frente. Então as músicas param, a câmera abre os planos para que o espectador veja tudo o que acontece em cena.

Assim, a história é conduzida para um clímax de suspense em que todas as peças têm importância e o espectador se vê preso na cadeira enquanto torce para que aqueles ignorantes não machuquem personagens que são culpados apenas de viverem entre eles e querer direitos básicos.

Clipe promocional do filme demonstra o estilo blaxploitation na produção.

E Lee, como não pode deixar de ser, faz questão de dar um ponto final pessimista para a história. Isso porque ele sabe que mesmo que a trama se passe em um passado onde o racismo era mais aberto, ela ainda reflete preconceitos muito presentes no mundo atual. Mesmo que divirta do começo ao fim, é preciso lembrar o horror de então, e de agora. E ele o faz sem medo de causar mal estar.

P.S.: Lee aproveita para fazer uma merecida crítica ao primeiro filme narrativo da história do cinema, O Nascimento de uma Nação, aclamado pela importância da linguagem da arte, mas ainda uma das piores coisas já feitas para as telonas.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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